Kasa do medo
Histórias de suspense, terror e horror.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
A médica e o monstro
Já passava de duas horas da manhã, a rua estava deserta e Jane corria sob a chuva fria que molhava seus ferimentos.
Sua blusa estava rasgada, empapada de sangue, suor e água de chuva. Cada gota desses dois últimos que escorria na ferida aberta intensificava seu sofrimento, pisar com força no chão era uma agonia maior ainda e a garota sentia a dor piorando a cada passo desesperado, a cada respiração ofegante. Mas precisava continuar, achar um lugar para se esconder ou alguém para socorrê-la. ******************************************************
Tinha vontade de gritar, por causa do medo e do desespero, da ânsia por proteção e segurança, mas não gritou. Conteve-se com dificuldade, a voz presa na garganta com muito esforço, pois temia revelar sua localização ao perseguidor, já que alimentava a esperança de que ele houvesse perdido-a de vista. Então apenas se permitiu chorar, soluçando como uma criança, sentindo as lágrimas salgadas misturando-se às gotas de chuva que desciam por seu rosto.
Em sua fuga desesperada viu alguns arbustos no jardim de uma casa próxima e correu até eles, deitando-se no chão e escondendo-se da melhor forma possível. Tentou então controlar a respiração, que era alta e ofegante e poderia denunciá-la. Esforçou-se para inspirar e expirar devagar e pausadamente, de forma silenciosa e suave. Seu corpo ainda tremia sob a chuva, pelo frio e pelo medo. No entanto, seu instinto de sobrevivência era forte e ela conseguia cada vez mais controlar os impulsos nervosos de seu corpo. Havia pensado em ligar para a polícia, mas não estava com o celular, pensara também em pedir ajuda aos vizinhos, mas até que alguém a ouvisse gritando, acordasse e se arriscasse a abrir a porta, seu perseguidor já a teria esquartejado ali mesmo na soleira. Achava melhor continuar escondida. ************************************************************************************
Agora ouvia apenas o som da chuva pesada que caía nos telhados e, às vezes, um trovão ao longe. Estava deitada sobre o barro, bem atrás dos arbustos, quase mesclando-se a eles e ali pretendia permanecer até que o sol nascesse e ela pudesse ver as pessoas se dirigindo aos seus respectivos empregos. Somente assim sentiria segurança para abandonar seu esconderijo. Ouviu então um som familiar, que lhe deu vontade de chorar e se encolher como um bebê em posição fetal, como se esse ato fosse a última tentativa desesperada de salvação ou mesmo de aceitação acerca de seu destino. Era o som de um rádio mal sintonizado, chiando e tocando algum tipo de música infantil antiga e melancólica, onde mal se distinguia o que era música e o que era chiado. Jane, porém, conseguiu identificar um trecho da canção: “Nana, n*nem, qu* a cuca vai peg*r”. Nesse instante, em meio ao bizarro caos sonoro, surgiu a silhueta de seu perseguidor, enorme e ameaçadora. Segurava um facão em uma das mãos e na outra trazia um velho rádio, andava devagar e girava a cabeça, procurando por Jane e, de trás dos arbustos ela teve a impressão de que seu perseguidor a farejava. Ele estava muito próximo agora, de costas para o esconderijo da garota e ela via suas botas sujas de lama, a calça surrada e a lâmina enferrujada do facão, enquanto ouvia ainda o chiado do rádio e a canção que se misturava ao barulho da chuva. **************************************************************************
Escondida ali, Jane imaginava o facão perfurando sua barriga, a dor que sofreria enquanto o metal frio cortaria sua carne e atingiria órgãos internos, o sangue escorrendo e a proximidade da morte. Uma morte horrível, violenta e cruel, dolorosa ao extremo. Sentia a adrenalina disparada, o estomago gelado e seu coração parecia querer explodir, batia rapidamente, embalado pelo medo crescente. O perseguidor estava imóvel sob a chuva, de repente virou-se na direção do arbusto em que Jane se escondera e aproximou-se. Andava devagar e descompassadamente, como se tivesse uma perna maior que a outra. Parou bem próximo ao arbusto, tão próximo que Jane conseguia ouvir sua respiração, era como a de um animal raivoso, ela sentia naquele barulho algo violento e irracional, a maldade pura que disfarçara-se como um ser humano. O medo e o desespero haviam paralisado-a, fechou os olhos, sabia que iria morrer agora e não queria ver, mas tinha tantas perguntas. Quem era ele? Por que estava fazendo isso? Seria algum tipo de vingança? Algum ex-namorado?
Ela havia recebido inúmeras ligações durante a semana e sempre que atendia ouvia apenas os chiados que ouvia agora, do rádio e da respiração, misturados à mesma canção infantil. Então silencio, alguém do outro lado da linha desligava o aparelho e para ela restava apenas dúvida e medo. Foi assim durante quase toda a semana, até que finalmente ouviu os chiados dentro de sua casa e sabia que não provinham do aparelho celular. Procurou imediatamente a fonte do barulho, pois já estava abalada pelo terror psicológico a que fora submetida com as ligações. Após os dois primeiros telefonemas ela havia rido, pensando se tratar de uma piada de mal gosto, um trote. Mas no decorrer da semana, quando os fatos se repetiram por quase todas as noites, cogitou a possibilidade de que alguém estaria realmente lhe ameaçando. Certamente alguém fora de seu juízo normal, pois algumas pessoas são capazes de tudo quando passam por situações extremas e perdem a sanidade.
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Quando encontrou um velho rádio chiando na mesa da cozinha e tocando a mesma canção que ouvira pelo telefone, Jane havia sentido apenas uma pequena fração do medo que sentia agora, deitada na lama e de olhos fechados. O temor era maior do que a leve insegurança que sentira quando atendera aos telefonemas, mas nada comparado ao choque que veio depois, quando encontrou o marido e a irmã mortos no sofá da sala. Havia muito sangue, pois os corpos haviam sido praticamente dilacerados, a carne rasgada em diversos pontos por golpes de alguma lâmina grande e afiada.
Ela lembrava-se do grito de horror que escapara de sua garganta ao deparar com tamanha atrocidade dentro de sua própria casa e da onda de pavor que percorreu seu corpo ao perceber a figura assustadora sentada em um sofá menor no canto da sala. Segurava um facão ensanguentado e usava uma máscara estranha, suja e rasgada, que retratava algum monstro deformado e inumano. A expressão da máscara era a de alguém que sorria maliciosamente, como se pensasse em algo obsceno. Antes que o assassino se levantasse, Jane correu até a porta e fugiu para a rua, correndo sob a chuva. Agora estava escondida atrás de alguns arbustos, seu perseguidor estava próximo e ela sabia que seria encontrada, era uma questão de instantes. Havia ouvido sua respiração, no entanto o único barulho agora provinha da chuva. Abriu os olhos e percebeu que estava sozinha, não havia sinal algum do homem mascarado. Teria ele desistido da busca e fugido?
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Jane continuava deitada, sentia-se um pouco aliviada, mas ainda horrorizada com tudo que presenciara e acima de tudo estava assustada, ainda temia por sua vida e não tinha coragem de se levantar e sair dali. Imaginava o estranho mascarado espreitando atrás de algum poste ou carro. Ela se perguntava que tipo de impulso o motivava a matar. Sentiria algum prazer mórbido ao aniquilar suas vítimas? A sensação de alívio que os psicopatas sentem apenas quando matam, seria essa a razão? Não conseguia entender, para ela nada justificava um assassinato, isso ia contra seus valores, era selvageria.
De repente, enquanto ainda se encontrava deitada e perdida em devaneios, sentiu duas mãos enormes segurando seus tornozelos de maneira rude e arrastando-a pela lama. Ela virou-se rapidamente e reconheceu seu perseguidor, se pudesse descrever a sensação que havia experimentado naquele instante, Jane diria que era como ter o estomago e o coração trespassados ao mesmo tempo por estacas de gelo. Essa era a sensação que o medo causava, a reação ao desespero veio com um grito agudo e um choro desesperado. A garota se debatia, tentando libertar as pernas enquanto era arrastada pelo jardim. A chuva caía forte ainda e Jane via agora a figura se debruçando sobre ela, sentia seu peso, o fedor das roupas e da máscara que roçava seu rosto. Uma das mãos fechou-se em seu pescoço, como se quisesse estrangulá-la, a outra procurou um seio sob a blusa rasgada e o acariciou.
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Debater-se era inútil, pois o agressor era muito grande e tinha enorme força, mesmo assim ela insistia, tentando se libertar. Quanto mais resistia, mais ele apertava sua garganta, quase deixando-a sem ar. Sentiu então que sua calça estava sendo retirada, mas não conseguia gritar, mal conseguia respirar. Tudo girava rapidamente, como se estivesse bêbada, mal distinguia as grossas gotas da chuva que vinham do alto e a horrível máscara que ria e agora subia e descia em movimentos frenéticos.
Jane sentia muita dor, a penetração fora muito brusca e os movimentos eram fortes, selvagens. Ela chorava e gemia, gemia porque sentia dor e prazer e chorava por que repudiava a si mesmo por sentir prazer com aquele ato. Pensava no quão imundo e depravado era aquele ser, seu perseguidor, assassino de seu marido e irmã. E mesmo assim sentia prazer como nunca havia sentido antes, gemia e se contorcia, gritava e gozava enquanto ele passava suavemente a lamina fria em seu rosto, como se a acariciasse.
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O senhor Miguel havia acordado assustado, pois ouvira gritos de mulher, gemidos que pareciam vir de seu jardim. Foi até a janela e o que vislumbrou o deixou perturbado, resolveu chamar a polícia.
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Quando Jane abriu os olhos havia uma luz muito branca sobre ela, estava deitada em uma cama muito macia, as paredes também eram brancas e havia, sobre um tripé, uma bolsa de sangue ligada em seu braço. Um homem estava sentado em uma cadeira no canto do quarto, era negro e careca, aparentava ter mais de quarenta anos e vestia-se como um pastor de igreja. O homem foi bastante educado, se apresentou e disse que era policial, perguntou como Jane se sentia e o que havia acontecido. Ela contou desde o momento em que havia chegado em casa após seu plantão no hospital ser cancelado, explicando como havia encontrado o rádio e os corpos, até a parte em que havia sido estuprada. Contou também sobre as ligações que havia recebido durante uma semana.
Ao final do depoimento o homem parecia pensativo, virou-se para Jane com uma expressão desanimada no rosto e explicou que a polícia havia requisitado as filmagens das câmeras de segurança da casa. Nas imagens Jane chegava em casa e surpreendia sua irmã transando com o marido no sofá da sala. As filmagens mostravam ainda que ela corria até a garagem e pegava um velho facão na caixa de ferramentas, usando-o para cometer os assassinatos, fugindo em seguida para a rua com a arma do crime. Jane mostrou-se transtornada e surpresa, riu achando que fosse uma brincadeira, depois irritou-se pela suspeita, que em sua opinião era infundada e ridícula. No entanto, logo percebeu que o detetive não estava brincando.
Argumentou mostrando o ferimento sob a blusa e dizendo que poderia fazer um exame para comprovar o estupro. O homem explicou pacientemente a procedência do ferimento. O marido, quando percebeu que Jane havia se armado com um facão, pegou uma faca para se defender e conseguiu feri-la, mas apenas superficialmente, sendo brutalmente assassinado em seguida. Quanto ao estupro, o detetive esclareceu que alguém havia chamado a polícia por que havia visto, depois das duas da manhã, uma mulher seminua deitada em seu jardim enquanto se masturbava e gritava, segurando um facão coberto de sangue.
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